"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao JL
A p(r)o(f)ética de Abril
02-04-2014 Jornal de Letras
entrevista de Maria Leonor Nunes

São poemas que muitos sabem de cor, cantaram e disseram clandestinamente, como resistência à ditadura salazarista. E "proféticos": falaram do "país de Abril" anos antes do 25 de Abril. Manuel Alegre escreveu a maioria deles no exílio e os livros Praça da Canção, de 1965, e O Canto e as Armas, de 1967, proibidos pela censura, durante o fascismo, passaram em fotocópias, de mão em mão, tornaram-se hinos de uma verdadeira lírica da liberdade.

O poeta - com uma vasta obra, que passa também pela ficção, e uma vida política e de cidadania ativa, que foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e duas vezes candidato à Presidência da República - fez uma escolha de poemas desses livros iniciais a que juntou outros mais recentes, de Atlântico e de Livro do Português Errante, numa antologia a que chamou precisamente País de Abril (ed. D. Quixote). Uma revisitação que percorre os versos que "anunciaram" a revolução, os seus tempos "eufóricos" e os dias "disfóricos" que se seguiram, acabando com Salgueiro Maia, inicialmente publicado no JL.

Vinte e nove poemas para ler outra vez e sempre, porque a "poesia é um ato de insubmissão", como afirma Manuel Alegre. E hoje, volta a ser uma forma de "subversão" da instituída linguagem do poder, dos mercados, das taxas de juro, que domina neste tempo de "palavras ocupadas".

Jornal de Letras: Quando relemos estes poemas em conjunto, não podemos deixar de sentir uma grande estranheza, desde logo por falarem de um ‘país de Abril, dez anos antes da revolução. Foram proféticos?
Manuel Alegre: Sim, é estranho. O livro abre mesmo com esse poema País de Abril, que dedico ao Melo Antunes, porque foi o primeiro amigo a quem o mostrei. E ele acabaria por ser o autor do programa do MFA. E há um outro poema a que chamei Explicação do País de Abril e outro A Rapariga do País de Abril, tal como tenho outro n’ O Canto e as Armas, que não está nesta antologia, mas podia estar, em que falo das flores de Abril.

Lembra-se como lhe surgiu a imagem do país de Abril?
Não sei explicá-lo. Quando escrevi estes poemas estava nos Açores, depois em Angola, e talvez sentisse saudade da força da primavera em Coimbra, na Bairrada, do país. É uma coisa misteriosa.

Em O Canto e as Armas há aqueles quatro versos que parecem anunciar assombrosamente a futura revolução: “Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a Lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal”.
Também não sei por que escrevi isso, não sei. O Poemarma é um ato de revolta, contra o conformismo, contra a mordaça da censura. Tem que ver com a busca da liberdade. Há quem fale de poesia-profecia, quem diga que os poetas são bruxos. Lorca falava disso e a Natália Correia também. Faz parte do processo mágico da poesia. Não tem outra explicação.

A poesia vai muitas vezes à frente do seu tempo?
Antecipa os sinais do tempo. Como disse um dia, a poesia não faz revoluções, mas não há revolução sem uma poética da revolução, não há mudança sem uma poética da mudança. E já vimos isso em muitos países submetidos a várias formas de opressão, em que a poesia e as canções antecipam a libertação. Foi isso que aconteceu aqui, em Portugal.

Coo alguns dos seus poemas, que foram aliás musicados e cantados.
O Adriano Correia de Oliveira foi o primeiro a cantá-los. Mas também o Zeca Afonso, o Bernardino, o Fanhais, o Cília. E a Amália Rodrigues. O facto de serem cantados fez com que fossem mais longe. Transformaram-se em verdadeiros hinos. E foram sem dúvida armas na Resistência e da luta pela Liberdade. Trova do Vento que Passa continuou a ser sempre muito cantada. Ainda outro dia, numa manifestação no Terreiro do Paço….

Ainda tem um sentido de Resistência?
É que estamos ocupados, as palavras estão ocupadas. A Sophia falava do capitalismo das palavras e neste momento a nossa linguagem está realmente ocupada por taxas de juro… É o pensamento único que se exprime numa linguagem única. Já ninguém fala do mar, do amor, do sol, das uvas, do vinho, da poesia. Só dessas coisas que exprimem o domínio total do poder financeiro sobre a vida das pessoas. Daí que eu pense que a poesia volta a ser importante como uma forma de resistência de sublevação contra a linguagem instituída que é a do poder.

Subversiva?
Um bom poema é sempre subversivo. Hoje, temos outras formas de censura, o país está de novo amordaçado, agora por um poder invisível, o dos mercados, que é totalitário. Portanto a poesia tem essa função de voltar a decifrar os sinais, a antecipar o tempo, pelo menos de subverter a linguagem do cifrão, dos juros, dos ratings, que afunilou a nossa vida, que pôs um muro diante de nós.

Uma Cantata do 25 de Abril

Como fez a escolha destes poemas?
Fazer uma antologia é muito difícil. Há não sei quantos anos que ando para fazer uma, mas não sou capaz e tudo acaba sempre na obra reunida. Este livro tem uma história engraçada. Um militar de Abril teve a ideia de eu e o António Victorino d’Almeida fazermos uma cantata para celebrar o 25 de Abril. Na verdade já escrevi muito sobre o 25 de Abril. Comecei dez anos antes e continuei depois. E foi assim que fiz esta antologia, com poemas de antes da Revolução, da fase eufórica e festiva e também da disfórica.

Acabou por ter na antologia os seus poemas mais conhecidos.
Podia ter escolhido outros, houve um ou dois que ficaram de fora, mas não quis acabar outra vez numa poesia reunida. O João de Melo, um dia, disse-me que esses poemas já não me pertenciam. Além de cantados, são sabidos de cor por pessoas que nem sabem ler. E estão a circular por aí, na net, outra vez. Até no Brasil. Um dos poemas que vem nesta antologia, Letra para um Hino, é lido agora nas manifestações e até já recebi emails de agradecimento.

País de Abril integra um poema em que já se esboça o desencanto, Vinte Anos Depois. E podia chamar-se "Quarenta anos depois". O que acrescentaria a esse poema hoje?
Quanto muito, poderia, de facto, escrever outro sobre os 40 anos depois. O que poderia dizer é que temos que rasgar um caminho. No fascismo, eu estive na cadeia, na guerra, depois no exílio, como muitos outros. Mas havia uma perspetiva, aquilo a que chamávamos a perspetiva histórica, uma esperança, a ideia que mudando o regime, a vida e a sociedade mudavam, como realmente aconteceu. Agora, é horrível ver que os jovens portugueses são aqueles que menos esperança têm na Europa, como diz um estudo recente. Tenho um poema que o Fanhais cantava que diz que a esperança é difícil, mas constrói-se. Porque não se pode viver sem ela, como disse o Churchil, na II Guerra Mundial. Disse essa frase e fez o “V" da vitória. Um poema pode ser como esse “V”, um símbolo, o que não quer dizer que seja panfletário. Eu nunca escrevi poesia política.

Mas teve consequências no plano político e social?
Decorrentes do próprio processo poético e por falar dos temas que falava. Escrevi que que “é preciso um país”, voltar a "descobrir / a pátria onde foi traída / não só a independência / mas a vida”. É um pouco o que está a acontecer neste momento, perdemos de certa maneira a independência e estamos a perder a vida, que hoje se mede em muito para cada vez menos e muito pouco para cada vez mais.

Em muitos versos, usou a palavra “pátria”, nos livros mais antigos. E usa-a ainda. Diz-lhe muito essa ideia?
Sim, no tempo do fascismo e hoje, porque muitos são patriotas europeus e eu continuo a ser um patriota português, embora me sinta culturalmente europeu. Quando escrevi esses poemas, houve até amigos meus que acharam estranho que usasse essa palavra. Mas era para mim a libertação da própria ideia de pátria que o fascismo tinha usurpado, uma confiscação para fins políticos do Estado Novo e que não eram os meus e de muitos portugueses. Usei a palavra pátria, de que gosto muito, como uma rebeldia.

A poesia é sempre um ato de rebeldia?
E de inconformismo. O poema é um ato de insubmissão.

O discurso político também se está hoje a apropriar da palavra pátria?
Noutros países, num mau sentido, começa a haver sobretudo um discurso xenófobo. Aqui, o discurso oficial é de submissão. Só falta falar alemão….

Não o de alguns poetas insubmissos alemães
Claro, não tenho nada contra a língua alemã, em que escreveram alguns dos meus poetas preferidos, Rilke e Hölderlin. Sou, sim, contra o que a Alemanha está a fazer à Europa e ao modo como os que nos governam são submissos em relação aos novos senhores que mandam na Europa.

Hölderlin perguntava o que pode fazer um poeta em tempo de indigência.
É a pergunta que Hélia Correia também faz no seu livro A Terceira Miséria. E a resposta é escrever. O poeta pode escrever contra a indigência.

E tem escrito muito?
Tenho um livro novo praticamente terminado. Sim, continuo a escrever. Já não será como antigamente que andava sempre com um poema na cabeça.

Um poema acontece como?
É uma toada, uma alteração da respiração, do ritmo cardíaco, por vezes do próprio andar. Não tenho uma atitude voluntarista, não me sento à mesa para escrever. Normalmente, é o poema que se impõe. Se calhar, nos bons poemas, o poeta até participa pouco. É apenas o mediador. Os gregos tinham as musas, Rilke falava do anjo, Lorca do duende: bruxarias…