Manuel Alegre e o Brasil: "Em momentos de escolhas decisivas não se pode deixar de tomar partido."
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
Manuel Alegre ao DN:
Os miúdos reconheciam o raro dom da inocência de Eusébio
06-01-2014 entrevista de Fernando Madail, DN

Entre os diversos textos que já escreveu sobre futebol, destacam-se os dois poemas dedicados a Eusébio, que viriam a integrar a antologia O Desporto na Poesia Portuguesa, de José Carmo Francisco. O que o fascinava tanto no jogador do Benfica?
Há duas coisas extraordinárias sobre o Eusébio. Vi miúdos, que nunca o viram jogar, a chorar, porque sabiam reconhecer nele o raro dom da inocência que esteve sempre vivo dentro do Eusébio. O que até se notava na forma como ele celebrava cada golo, como se fosse o primeiro ou o último.

E a outra?
Estava no exílio, em Argel, quando foi o Mundial de 1966. Vi o jogo com a Coreia em casa de Tito de Morais, na companhia de exilados angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos. E, apesar da ditadura, do colonialismo e da guerra que separava, mesmo os membros dos movimentos de libertação estavam a torcer por Portugal por causa do Eusébio. Além de ser um símbolo da dimensão internacional de um clube de futebol (neste caso o Benfica) era também esse traço de união, num tempo em que se morria nos campos de batalha e era possível que, de ambos os lados, parassem os combates para se ouvir os relatos de futebol na rádio.

Lembra-se bem de o ver jogar?
Logo no início da sua carreira, em Coimbra, contra a Académica, ou no Estádio da Luz, vi-o jogar muitas vezes. Na segunda final europeia do Benfica, em 1962, já estava nos Açores e só ouvi o relato da vitória do Benfica sobre o Real Madrid por 5-3.

Como o definiria?
Um genial jogador, com características físicas tão singulares (tinha, de facto, algo de pantera) que seria bom em qualquer modalidade. Num país deprimido, em que estávamos condenados à guerra, à prisão ou ao exílio, em que Portugal era condenado na ONU, Eusébio era uma espécie de compensação, uma alegria para o povo, uma das raras imagens positivas que se podia ter do País no estrangeiro. E o jogo com a Coreia do Norte (em que virou o resultado de 3-0 para 3-5, com quatro golos do Eusébio) talvez só tenha algo de comparável com o recente jogo com a Suécia (3-2, com hat-trick do CR7).

Tem poemas sobre o Bentes (talvez o melhor futebolista de sempre da Académica), o Chalana, o Figo. Quem é o maior jogador português de todos os tempos?
Os tempos são diferentes, mas os três melhores jogadores do futebol português são o Eusébio, Figo e Ronaldo. Mas houve outros grandes jogadores, como o Travassos (um dos "Cinco Violinos" do Sporting) que era o "Zé da Europa" (por ter sido o primeiro português a alinhar numa selecção da Europa), sobre quem escrevi um poema que nunca publiquei, ou o Chalana.

Que imagem guarda do futebolista?
Estive várias vezes com o Eusébio. E, mesmo agora, após as lesões e as doenças, o seu corpo era rijíssimo como mármore e abraçá-lo era como abraçar uma estátua viva.

O seu poema termina com os versos “Despido do supérfluo rematava/ e então não era golo: era poema”. O Eusébio era um poema?
Um poema não se explica. (sorriso)