"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya:
"A cigarra da periferia espalhou a sua fala por vários continentes"
08-05-2013

"Nesta hora em que o império dos mercados se sobrepõe aos próprios Estados, menosprezando a cultura e a dignidade de cada povo, é um orgulho dizer que neste pequeno país do Sul nasceu a terceira língua da Europa Ocidental mais falada no Mundo. Esta cigarra da periferia espalhou a sua fala por vários Continentes."

Texto da intervenção de Manuel Alegre

Agradeço sensibilizado ao Senhor Presidente da República, cuja presença vem dar a esta cerimónia uma outra dimensão e realçar a importância que atribui à língua portuguesa e ao espaço da lusofonia. Ao mesmo tempo representa um estímulo para o Prémio Leya e um reconhecimento do que ele já significa. Muito obrigado, Senhor Presidente.

Este é um prémio diferente, não só por ser o de mais alto valor pecuniário, mas pela sua própria natureza. Em primeiro lugar a composição do júri a que me honro de presidir e de que fazem parte escritores, poetas, críticos literários e professores universitários de países de língua oficial portuguesa: o escritor e crítico literário brasileiro José Castello, a Professora Doutora Rita Chaves da Universidade de São Paulo, o escritor Pepetela de Angola, o Professor Doutor Lourenço do Rosário Reitor da Universidade de Moçambique, o poeta, escritor e ensaísta Professor Doutor Nuno Júdice da Universidade Nova de Lisboa e o Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira da Faculdade de Letras de Coimbra.

Mas sobretudo pelo facto de ao Prémio Leya concorrerem autores de todos os países de expressão portuguesa. É além disso um concurso em que não há interferências. Ninguém sabe quem é quem. Os originais chegam sem rosto e sem nome, apenas com pseudónimo. Não é um prémio político nem de qualquer espécie de compadrio. Vence quem tem a maioria ou a unanimidade dos votos do júri, sem que os seus membros saibam em quem estão a votar.

Na era da globalização, em que há uma tendência para a uniformização cultural e até linguística, é um privilégio podermos falar e escrever nesta língua da “lusitana antiga liberdade”, que é também a língua em que, primeiro o Brasil e depois Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor proclamaram a sua independência e que posteriormente escolheram como língua oficial, enriquecendo-a com a criatividade dos seus povos e dos seus poetas. Língua de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Agostinho Neto, Pepetela, José Craveirinha, Mia Couto, Alda Espirito Santo, Arménio Vieira, Xanana Gusmão e tantos outros.

Nesta hora em que o império dos mercados se sobrepõe aos próprios Estados, menosprezando a cultura e a dignidade de cada povo, é um orgulho dizer que neste pequeno país do Sul nasceu a terceira língua da Europa Ocidental mais falada no Mundo. Esta cigarra da periferia espalhou a sua fala por vários Continentes. Como disse alguém: “Numa nação antiga como Portugal, mesmo quem nasce pobre nasce rico de uma História, de uma língua, de uma cultura.”

Mas, enfim, hoje é dia de Nuno Camarneiro, vencedor do Prémio Leya, com o seu romance “Debaixo de algum céu”. Como foi então sublinhado: “O júri apreciou no romance “Debaixo de algum Céu” a qualidade literária com que, delimitando intensivamente a figura fulcral do "romance de espaço" e do "romance urbano", faz de um prédio de apartamentos à beira-mar o tecido conjuntivo da vida quotidiana de várias personagens - saídas da gente comum da nossa actualidade, mas também por isso carregadas de potencial significativo. Retrato de uma microsociedade unida pelo espaço em que vivem os personagens, o romance organiza-se a partir de um conjunto de vozes que dão conta de vidas e destinos que o acaso cruzou num período de tempo delimitado entre um natal e um fim do ano. Ouvimos vozes, poemas, ladainhas, canções, que transportam memórias e sentimentos e pontuam os encontros, desencontros e tragédias de que os moradores só se apercebem quando saem à luz do dia. O júri destacou nesta obra o domínio e a segurança da escrita, a coerência com que é seguido o projecto, a força no desenho dos personagens e destaca a humanidade subjacente ao que poderá ser lido como uma alegoria do mundo contemporâneo.”

A porta doirada da fama abriu-se para Nuno Camarneiro. E com ela uma nova responsabilidade e uma acrescida exigência. E também a capacidade de sofrer e enfrentar os aparelhos literários e da crítica, que não são menos sectários de que os aparelhos políticos, com a agravante de nem sequer serem escrutinados. Mas é assim a vida e o ofício de escrever.

Desejo a Nuno Camarneiro novos êxitos e inspiração para a escrita, entendida como aventura, compromisso e risco.

Felicito mais uma vez a Direcção da Leya pelo mérito desta iniciativa. Agradeço a todos os membros do Júri e a todos os colaboradores da Leya.

Espero que este prémio tenha cada vez mais originais vindos de todos os países de Língua Oficial Portuguesa e que continue a revelar boas surpresas, bons livros e bons escritores da nossa amada língua.