"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
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Marco Fazzini, Sandra Bagno e Manuel Alegre no Palazzo del Bo, em Pádua
Marco Fazzini, Sandra Bagno e Manuel Alegre no Palazzo del Bo, em Pádua
Manuel Alegre com o Presidente da Câmara de Pádua e a Professora Sandra Bagno
Manuel Alegre com o Presidente da Câmara de Pádua e a Professora Sandra Bagno
Intervenção de Manuel Alegre na Universidade de Pádua
"O poema e a vida"
22-05-2012

"Meu poema rimou com a minha vida", afirmou Manuel Alegre no texto que leu na Universidade de Pádua, a abrir as Jornadas de Estudo promovidas no âmbito da Cátedra Manuel Alegre, criada naquela Universidade em 2010. Sob o tema "A Poesia e a Vida", o poeta interroga-se sobre o papel da poesia "neste tempo dominado pela ignorância, pela ganância, pela estupidez e pelo império do dinheiro". Fiquemos com as suas palavras finais: "Descontaminar a linguagem e restituir às palavras o seu sentido. Eis o que pode fazer a poesia. E o que pode ser o princípio de uma revolução."
Veja a intervenção integral no desenvolvimento da notícia

O Poema e a Vida

I

Perguntam-me muitas vezes como é possível conciliar a poesia e a política. Eu próprio vivi e sofri esse dilema. Mas um dia percebi que já o tinha resolvido num poema publicado em “Praça da Canção” (o meu primeiro livro) e que se intitulava “Como se faz um poema”.
Permitam-me citar algumas estrofes:

Com muita coisa eu fiz o meu poema.
Rasguei retratos abri um poço
na planície. Habitei muitos cadernos.
Fui à guerra e morri. Fui à guerra e voltei.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Parti vestido de soldado. Eu vi Lisboa
cheia de lágrimas. E um avião ficou
por muito tempo voando entre lágrimas e nuvens
minha amada chorando no aeroporto triste.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Meu amigo morreu. Já disse como foi.
A mina rebentou meu amigo ficou
com as tripas de fora em cima de uma árvore.
Aprendi na terceira pessoa o verbo morrer.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Eu vi soldados com as mãos cheias de sangue.
Mas isso foi de mais. E tive de aprender
na primeira pessoa o verbo matar. Desde aí
há certos adjectivos que me doem muito.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Não vou dizer o tempo que demora um verso.
Como dizer-vos por exemplo o tempo
com as chaves metálicas batendo
Na minha cela que depois rimei com estrela?
Com muita coisa fiz o meu poema.

Cidade já rimei com liberdade
(muita coisa aprendi desde esse tempo)
Liberdade rimei depois com estrela e cela
Tristeza fiz rimar com alegria
Meu poema rimou com minha vida.

Com muita coisa eu fiz o meu poema.
Aprendi-o no vento. Aprendi-o no barro.
Sobretudo na rua. E nalguns livros também.
Porém foi junto aos homens que aprendi
como as palavras são terríveis e sagradas.

Aqui vos deixo o meu poema. Aqui vos deixo
cidade a não rimar com liberdade
liberdade a rimar com estrela e cela
meu poema a rimar com minha vida. Aqui vos deixo
as coisas com que fiz o meu poema.

Este poema é, de certo modo, uma arte poética. E a resposta está lá: meu poema rimou com a minha vida.

Assim tem sido desde o meu primeiro livro até ao último: a escrita e a vida inseparáveis, o poema a rimar com a minha vida.

II

… “os versos não são feitos com sentimentos, mas com experiências vividas” ,escreveu Rainer Maria Rilke em Os Cadernos Malte Laurids Brigge. Creio, na verdade, que, tal como ele dizia, “para escrever um só verso é preciso ter visto muitas cidades, muitos homens e coisas…É preciso poder lembrar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas há muito previstas …” Tudo isso é a vida, e de tudo se faz o poema. Até de uma pedra no meio do caminho, como no célebre poema do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. “Havia uma pedra no meio do caminho”. Sim, há sempre uma pedra no meio do caminho. E essa pedra também é o poema. Porque ninguém está fora do caminho, ninguém está fora da História, nem mesmo aqueles poetas que, segundo João Cabral de Melo Neto, se julgam “inespaciais e imtemporais”.

Nos anos sessenta, em Portugal, alguns de nós voltámos à poesia trovadoresca, criámos o novo a partir da tradição e usámos as máscaras dos trovadores para passar as mensagens proibidas. Depois, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e outros deram voz a esses poemas e transformaram-nos em canções de protesto contra o fascismo e contra a guerra colonial. Assim levaram a poesia mais longe. Pessoas que não sabiam ler aprenderam de cor alguns desses poemas.

Creio que a necessidade lírica, épica e satírica permanece. Por isso é que multidões de jovens se reúnem para ouvir a poesia da música pop ou os cantores de rap, esses novos herdeiros da tradição oral.

III

Podemos talvez perguntar-nos que sentido tem hoje a poesia neste tempo dominado pela ignorância, pela ganância, pela estupidez e pelo império do dinheiro? Poderá o poema continuar a rimar com a vida? Tenho-me recordado de um poema do poeta italiano Salvatore Quasímodo, Prémio Nobel de literatura. Começava assim, cito de memória: “E come potevamo noi cantare /con il piede straniero sopra il cuore?” Era o tempo da ditadura e sentia-se um peso no coração. Apesar dele e contra ele se escrevia e se cantava. Agora voltamos a sentir esse peso, não o de uma ditadura política, nem o de uma ocupação militar, mas de algo que é mais difícil de definir e talvez mais difícil de combater, uma invasão das nossas vidas por forças misteriosas e invisíveis, a que chamam os mercados, que mandam nos nossos países, degradam a nossa cultura, o nosso modo de vida e a nossa civilização latina, a civilização do sol e do sul, para cortarem as reformas aos velhos e roubarem o futuro à juventude. É preciso que a voz da poesia se faça ouvir outra vez para nos libertar desse peso no coração.
Hélia Correia perguntava recentemente, citando Holderlin: “Para que servem os poetas em tempo de indigência?” Ela própria encontrou a resposta. Escreveu a “Terceira Miséria”, uma magnífica elegia.

É para isso que servem os poetas: para escrever poesia. Cada poema que se escreve é uma derrota da indigência, seja ela cultural, ética, política ou mesmo literária. Uma derrota da indigência e da regressão civilizacional que hoje estamos a viver.

Nos tempos que correm, cada poema, independentemente do seu conteúdo, é um acto de resistência. Contra a contaminação da linguagem por aquilo a que Sophia de Melo Breyner chamou “o capitalismo das palavras”. Contra a cultura do número e a ocupação da língua por taxas de juro, cotações bolsistas, troikas e empresas de rating. Contra a violação da nossa liberdade pela mão invisível. Contra o imediato, o efémero e o mediático.

Procurar o sentido, mesmo que não haja sentido nenhum, é um acto de resistência. Cantar o amor, formular as perguntas sem resposta, escrever sobre a transcendência, a presença ou a ausência de Deus, são actos de resistência. Assim como voltar a Tróia, às sublimes e concretas palavras de Homero e à glória de Heitor, o único herói que tendo sido vencido é um vencedor eterno.

Pela palavra poética se resiste. Aos aparelhos económicos e políticos que bloqueiam a nossa cidadania. E até aos de uma certa literatura, que não é menos fechada e sectária e que, embora cultivando uma pseudo marginalidade, têm uma insaciável sede de poder, assaltando os instrumentos que lhes permitem ditar as regras, as modas e as cumplicidades.

A poesia está aquém, além e acima. Talvez não haja mudança sem uma poética da mudança, como nunca houve revolução sem uma poética da revolução, mesmo quando os seus grandes poetas foram depois vítimas dela.

Entre os muitos défices que avassalam o mundo e invadem as nossas vidas há um de que não se fala: o défice de poesia. Não será possível resolver os outros sem que no cinzento de cada dia haja um pouco mais de azul, um pouco mais de poesia.

A palavra do homem está pervertida. Pela tecnocracia, pelos interesses, pelo império do dinheiro. A pequena ou grande revolução que cada poeta pode fazer é subverter o discurso instituído e recuperar a força mágica da palavra. Porque a poesia é linguagem e só por ela se pode reconquistar a perdida beleza da palavra do homem.

Talvez seja para isso que servem os poetas em tempo de indigência. E talvez seja esse o poder da poesia na grande selva em que se transformou o mundo

IV

Poderá a crise que hoje se vive na Europa colocar-nos de novo perante uma até agora impensável hipótese revolucionária? Esta é a questão proposta num inquérito pela revista portuguesa Relâmpago. Como abordar de novo o tema Poesia e Revolução? Permitam-me algumas considerações.

1. A poesia antecedeu quase sempre a revolução. Pela desconstrução da linguagem estabelecida, pela subversão de dogmas e mitos, pela violência verbal contra o conformismo e contra o medo, pela própria “vidência”. Nesse sentido criou a poética da revolução antes da revolução. Rimbaud, os surrealistas, os grandes poetas russos, mesmo os que viriam a ser vítimas da revolução de cuja poética foram os criadores. E talvez nunca tão revolucionários como quando se deram conta da degenerescência da revolução. Foi então que Osip Mendelstam, ao partir para a deportação e a morte, disse à mulher esta frase extraordinária: “A poesia é o poder”. E tinha razão. As estátuas de Staline foram derrubadas e o poeta está mais vivo do que nunca.

2. Será que o poema de Dante, o primeiro grande poeta “civile”, é ruptura, descontinuidade,
transgressão ou, pelo contrário, constitui uma revolução pela busca da unidade circular em torno do número 100 e de uma forma suprema de harmonia, através da fundação de uma nova linguagem poética, que foi também um poder político e espiritual do exilado de Florença? Também Camões fundou a língua que nós hoje escrevemos e falamos. Compôs o maior poema político da nossa literatura em que, para além da celebração da História e da exaltação da aventura das navegações, critica a política de conquista. Concordo com António Sérgio, a fala do Velho do Restelo é a própria voz de Camões, anticolonialista “avant la lettre”. Não há tábua rasa, nem na História, nem na política, nem na poesia. Em cada verso novo estão todos os versos que se escreveram para trás. O “make it new” de Pound aponta para uma síntese entre tradição e modernidade. Cada revolução poética conseguida é sempre essa síntese.

3. Creio que nenhuma revolução na poesia constituiu em si mesma uma revolução política. Mas nunca houve revolução política sem uma poética da revolução. Talvez a crise actual necessite de novo da voz dos filósofos e dos poetas. Neruda foi talvez o mais político dos poetas modernos. Mas os seus poemas de amor tiveram provavelmente mais influência revolucionária do que os seus poemas políticos. Em Portugal, durante a ditadura, a poesia teve sem dúvida uma influência política. Às vezes só pela beleza e novidade da linguagem poética. E também através do canto. Isso é inegável.

4. Rimbaud acreditava que pelo poder da palavra poética se pode mudar a vida. E Camões disse que “em se mudando a vida/ se mudam os gostos dela”. Breton buscava a palavra primordial. Creio que desde então, desde essa palavra antes da palavra, a linguagem poética, nas suas múltiplas declinações, não tem feito outra coisa senão transformar o homem e o mundo.

5. A violência da poesia não resulta da violência verbal, mas da sua capacidade transgressora e subversiva em relação à ordem e moral estabelecidas. Nesse sentido, um poema erótico, mesmo em linguagem contida, pode ser muito mais violento do que um poema apelando à insurreição armada. E um verso de amor, por exemplo, “É urgente o amor”, pode incitar à luta política. Seja como for, esta é uma crise sem precedentes. E as grandes crises, como dizia Octávio Paz, são sempre crises de civilização. O poder financeiro domina a economia, a política, os meios de comunicação social. Impôs ao Mundo uma hegemonia ideológica e cultural. Os mercados sobrepõem-se aos próprios Estados. Até a linguagem está invadida pela cultura dos números e pelo império do dinheiro. Descontaminar a linguagem e restituir às palavras o seu sentido. Eis o que pode fazer a poesia. E o que pode ser o princípio de uma revolução.

Lisboa 13 de Maio de 2012

Manuel Alegre