Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
Manuel Alegre e Maria Teresa Horta
Manuel Alegre e Maria Teresa Horta
Manuel Alegre na apresentação de "Nada está escrito"
"Cada poema que se escreve é uma derrota da indigência"
16-04-2012 Manuel Alegre

Hélia Correia perguntava recentemente, citando Holderlin: “Para que servem os poetas em tempo de indigência?” Ela própria encontrou a resposta. Escreveu a “Terceira Miséria”, uma magnífica elegia. É para isso que servem os poetas: para escrever poesia.

Cada poema que se escreve é uma derrota da indigência, seja ela cultural, ética, política ou mesmo literária. Uma derrota da indigência e da regressão civilizacional que hoje estamos a viver.

Pode a poesia mudar alguma coisa? Não sei responder a essa pergunta, embora Rimbaud tenha escrito que ela pode “mudar a vida” e eu continue a acreditar na vidência e no efeito mágico da palavra poética.

Num mail que me enviou depois de receber este meu livro, Maria Teresa Horta fala da “nossa língua e da nossa poesia – seu lado mais belo”. E também da “nossa escrita / nosso sonho e utopia. O nosso sobressalto”.

Talvez escrever poesia hoje seja sobretudo isso: um sobressalto. E por isso ela diz que este livro “ é um livro de resistência – em sentido lato”.

Talvez seja.

Nos tempos que correm, cada poema, independentemente do seu conteúdo, é um acto de resistência. Contra a contaminação da linguagem por aquilo a que Sophia de Melo Breyner chamou “o capitalismo das palavras”. Contra a cultura do número e a ocupação da língua por taxas de juro, cotações bolsistas, troikas e empresas de rating. Contra a violação da nossa liberdade pela mão invisível. Contra o imediato, o efémero e o mediático.

Procurar o sentido, mesmo que não haja sentido nenhum, é um acto de resistência. Cantar o amor, formular as perguntas sem resposta, escrever sobre a transcendência, a presença ou a ausência de Deus, são actos de resistência. Assim como voltar a Tróia, às sublimes e concretas palavras de Homero e à glória de Heitor, o único herói que tendo sido vencido é um vencedor eterno.

Pela palavra poética se resiste. Aos aparelhos económicos e políticos que bloqueiam a nossa cidadania. E até aos de uma certa literatura, que não é menos fechada e sectária e que, embora cultivando uma pseudo marginalidade, têm uma insaciável sede de poder, assaltando os instrumentos que lhes permitem ditar as regras, as modas e as cumplicidades.

A poesia está aquém, além e acima. Talvez não haja mudança sem uma poética da mudança, como nunca houve revolução sem uma poética da revolução, mesmo quando os seus grandes poetas foram depois vítimas dela.

Entre os muitos défices que avassalam o mundo e invadem as nossas vidas há um de que não se fala: o défice de poesia. Não será possível resolver os outros sem que no cinzento de cada dia haja um pouco mais de azul, um pouco mais de poesia.

A palavra do homem está pervertida. Pela tecnocracia, pelos interesses, pelo império do dinheiro. A pequena ou grande revolução que cada poeta pode fazer é subverter o discurso instituído e recuperar a força mágica da palavra. Porque a poesia é linguagem e só por ela se pode reconquistar a perdida beleza da palavra do homem.

Talvez seja para isso que servem os poetas em tempo de indigência. E talvez seja esse o poder da poesia na grande selva em que se transformou o mundo.

Manuel Alegre