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Manuel Alegre
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Manuel Alegre doando o manuscrito de "Alma"
Manuel Alegre doando o manuscrito de "Alma"
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Manuel Alegre na inauguração da biblioteca municipal de Águeda com o seu nome:
“Este bem público é um fruto cultural da democracia”
16-10-2010

Estava a lembrar-me da Águeda da minha infância e realmente a infância é um país. É um país que existe e já não existe, é um país que passa e não passa. Talvez por isso eu tenha chamado Alma a Águeda, porque aquela Águeda de que eu falo é uma Águeda que existe e não existe, que passou e não passou e ficou na sua essência, na sua alma.

Era uma terra marcada por uma grande estratificação de classes, por grandes diferenças sociais. Eu pertencia a uma família privilegiada em relação a outras, éramos dos poucos que usavam sapatos, essa diferença marcou-me sempre.

Neste momento eu penso nesses companheiros, sobretudo nos que usavam sapatos, nos que ainda aí estão e nos que já morreram, nos professores que me ensinaram a língua portuguesa, que me ensinaram os verbos, que me ensinaram a gramática.

Penso na minha rua e nos ofícios que havia na minha rua, a arte de moldar a madeira, os sapatos, de amassar o pão – tudo isso que me ensinou a apreciar a importância da forma, a busca da forma para chegar à substância das coisas. E também a fala de Águeda, os ritmos da fala de Águeda, os cegos que passavam na rua a cantar aquelas histórias e aqueles rimances antigos, e as histórias que eu ouvia também na própria casa, do meu pai e da minha mãe.

Na minha casa havia uma biblioteca mas a maior parte dos meus companheiros de escola não tinha biblioteca. Hoje há uma biblioteca que é uma biblioteca para todos.

E penso nos ritmos da fala de Águeda. Se calhar não foi por acaso que entre os poetas que Alain Oulman escolheu para a Amália cantar, dois dos mais cantados são dois poetas ligados a Águeda, Pedro Homem de Melo e eu próprio. Talvez isso tenha a ver com o ritmo, com uma certa toada musical e com a estrutura musical que ficou na escrita e ficou nos poemas.

Para mim, hoje, isto é um acto de cultura que mostra a superioridade da democracia. Esta biblioteca é uma biblioteca moderna, uma biblioteca onde as pessoas podem vir mas que também vai às pessoas, vai a casa das pessoas que estão doentes, vai a casa daqueles que não podem vir aqui. Tem até dois aparelhos que eu nunca tinha visto onde os invisuais podem ler e aqueles que não sabem ler também podem escutar os livros.

É uma biblioteca moderna, foi feito aqui um grande trabalho, já para aqui mandei parte do meu espólio, agora vou mandar cada vez mais, sobretudo da parte literária, sei que ficará bem entregue.

Hoje entreguei ao Presidente da Câmara de Águeda o manuscrito do Alma – o manuscrito mesmo – porque acho que é aqui que deve ficar. Mas sobretudo eu acho que esta biblioteca só é possível com as transformações que se verificaram em Portugal depois do 25 de Abril, com as grandes transformações que foram possíveis com a democracia.