"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
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Prémio D. Dinis é atribuido pela Fundação Casa de Mateus
Prémio D. Dinis é atribuido pela Fundação Casa de Mateus
Entrega do Prémio
Entrega do Prémio
Manuel Alegre ao receber o Prémio D. Dinis:
"O que mais me toca é o prémio ter o nome de um rei poeta"
12-09-2008
"Doze Naus" é o livro premiado

Pertenço a uma família de desportistas para quem o desporto foi sempre indispensável à formação do carácter. De meu avô Mário Duarte, considerado o maior pioneiro do desporto português e a quem António Nobre, no Só, trataria por "Mário da Anadia", recebi, através de meu pai Francisco Duarte, outro grande atleta, o ensinamento de que se deve aprender a ganhar sem arrogância e a perder sem azedume.

Talvez por isso, para mim, os únicos prémios que não oferecem dúvidas são os que se alcançam nas pistas de atletismo e de natação. Ganha quem chega primeiro, quem salta mais alto e mais longe.

Em literatura, ao contrário do que alguns pensam, não há campeões. Não há campeões de poesia, nem de prosa. Só o tempo dirá quem chegou à frente e foi mais alto e mais longe. O senhor Presidente da República, que também foi atleta, compreenderá por certo o que quero dizer. Estou a definir uma posição pessoal em relação aos prémios literários, sobre os quais Sophia de Mello Breyner costumava dizer que "o melhor é não pensar neles porque fazem mal à cabeça". Comigo não há esse perigo.

Posto isto, devo dizer que fiquei surpreendido e, ao mesmo tempo, muito contente quando Fernando Albuquerque, a quem presto homenagem, assim como a sua mulher, Maria Amélia, me telefonou a comunicar que me tinha sido atribuído o prémio D. Dinis. Contente e honrado.
Trata-se de um prémio instituído em 1980 pela Fundação da Casa de Mateus, que tem persistido, contra a lógica do tempo e da facilidade, em promover as artes, nomeadamente a literatura e, em especial, a poesia, que "não está no comércio", como costuma dizer o meu amigo Herberto Hélder. Honrado por a decisão ter sido tomada por um júri constituído por três distintos poetas portugueses.

Por fim, é para mim uma honra e motivo de especial satisfação receber o prémio das mãos de Sua Exa. o Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, a quem quero expressar, não só o meu respeito institucional, como a minha consideração e o meu apreço.

Não me levarão por certo a mal se vos confessar que o que mais me toca é o prémio ter o nome de um rei poeta. Um rei que foi autor de alguns dos primeiros grandes poemas escritos em português e nos deixou versos, como "As Flores de Verde Pinho", que para sempre ficarão na nossa memória. Poemas, versos, ritmos e metáforas que de certo modo ajudaram a fundar a poesia portuguesa e a consolidar a inigualável música da nossa língua. E além do mais, o que me é muito caro, o primeiro a demonstrar que, ao contrário dos preconceitos, não há incompatibilidade entre a poesia e a intervenção pública, mesmo quando exercida ao mais alto nível.

Sempre assim pensei. As circunstâncias históricas fizeram-me viver entre a escrita e a intervenção política. Nunca considerei tal facto uma cisão, mas antes uma conjugação. Escrita e vida são inseparáveis. E não me venham dizer que os poetas não têm biografia. Todos a têm. Às vezes muita, como Camões. Mas mesmo Pessoa, a partir de uma pretensa não-biografia, construiu várias, a dele próprio e a dos seus heterónimos.

O certo é que esta conjugação de escrita e política gerou durante muito tempo à minha volta alguns equívocos: leituras de exaltação ideológica e leituras redutoras. Livros proibidos e apreendidos pela censura e pela polícia política, o que era normal durante a ditadura. Mas depois, o que já não era tanto, silêncios, omissões, censuras estéticas. Valeram-me os meus leitores, as altas tiragens e as sucessivas reedições dos meus livros. E também os que, primeiro contra a corrente, como Clara Rocha e, mais tarde, entre outros, Teresa Rita Lopes, Maria Lúcia Lepecki, Eduardo Lourenço, Maria Helena da Rocha Pereira, Paula Morão e Vítor Manuel Aguiar e Silva, a quem devo uma inesquecível leitura da minha poesia, me ajudaram a dobrar o cabo das interpretações ideológicas e redutoras e contribuíram para que, a partir de certa altura, os meus livros acabassem finalmente por sair de uma quase clandestinidade.

E digo quase porque os leitores, mesmo no tempo da censura, sempre fizeram circular os meus poemas, muitas vezes em cópias manuscritas, que são aquelas de que mais orgulho tenho.
Chegou depois o tempo do reconhecimento académico e dos prémios, inclusivamente o Prémio Pessoa. Mas o Prémio D. Dinis tem para mim um significado especial. Foi decidido por poetas e tem, como já disse, o nome de um rei poeta, provavelmente também ele, no seu tempo. conjugando a vida e a escrita, a poesia e a política, o que, sendo exaltante, nem sempre é fácil. E também por ter sido atribuído a Doze Naus, um livro que me é caro, ainda que não tenha tido o impacto de outros.

- "Que faz o navegador em terra, numa Ítaca de muito mar e pouca viagem?" - perguntou Abílio Hernandez, na notável apresentação que fez deste livro em Coimbra.

O navegador-poeta embarca nas doze naus. Que são, como muito bem sublinhou Vítor Aguiar e Silva, numa sessão no Porto, as naus de Ulisses. As doze naus pintadas de vermelho, as naus da poesia. As naus em que, desde Homero, o poeta dá um nome concreto às coisas na grande página do mundo. As naus em que se busca Ítaca, a terra mítica do poema, que não é senão talvez a própria errância.

- "Quantas naus são necessárias para enfrentar o desconhecido e o medo?" - perguntou também Abílio Hernandez.

As naus são sempre as doze naus da imaginação. As de Ulisses. Mas também a da poesia portuguesa. Recordo Miguel Torga: "Todos os caminhos transversais de Portugal vão ter ao mar. Verificá-lo é avivar na consciência a nossa razão de ser. Nascemos para embarcar. Ou de imediato ou na lembrança ou na imaginação." E já o grande poeta Afonso Duarte tinha dito: "Há só mar no meu país." É verdade que somos hoje um "país pequeno e pobre", com "muito passado e muita história e cada vez menos memória, país que por vezes já não sabe quem é quem, país de muito mar e pouca viagem." Mas somos também o país em que em português o vento vem do mar. País do Mar Absoluto. País em que, por vezes, "há um navio fantasma sem ninguém ao leme." País em que sobre o mar visível haverá sempre o invisível, o mar de dentro. E é nesse que todos nós continuaremos sempre a navegar.

- "Quem espera - se alguém espera - para além da curva?" - pergunta ainda Abílio Hernandez. Essa é a pergunta da poesia. Uma pergunta talvez sem resposta. Não nos resta senão continuar a procurar. Nas doze naus.

Manuel Alegre

Intervenção feita na Casa de Mateus, em Vila Real, por ocasião da entrega do prémio D. Dinis