"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Entrega do Prémio Leya
"O rastro do jaguar" de Murilo de Carvalho
06-04-2009

Senti-me a descobrir outra vez o Brasil e a penetrar no segredo e no mistério de um país desconhecido através de uma narrativa épica, com uma estrutura wagneriana, onde em vez de valquírias e nibelungos, nos aparecem os guerreiros e xamãs ameríndios com as suas falas sagradas, ritmicamente repetidas, que fazem de certas páginas deste livro uma arte poética, um reencontro com a palavra primordial, poesia em estado puro.

O meu agradecimento ao Sr. Presidente da República e à Senhora Dr.ª Maria Cavaco Silva por terem vindo honrar com a sua presença a atribuição do Prémio Leya ao Escritor brasileiro Murilo de Carvalho. Não se trata, em meu entender, da rotina de mais um prémio, mas de um facto novo na centenária navegação da língua portuguesa. Uma língua de viagem e mestiçagem, rio de muitos rios. E também pátria de muitas pátrias. Uma língua inseparável do processo histórico de criação de nações. A começar por Portugal. Antes de ser Estado, Portugal foi trova, cantar de amigo, flor de verde pinho, menina e moça de Bernardim. E também "O sol é grande" e "Comigo me desavim" de Sá de Miranda. E sobretudo Camões, a Lírica e Os Lusíadas, esse poema que é um verdadeiro acto de soberania espiritual. Esta é a verdade poética da criação de Portugal. E portanto a verdade histórica. Nem foi por acaso que Fernando Pessoa disse que "as nações todas são mistérios".

Mas não será também verdade que Angola nasceu da poesia e da prosa de Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, António Jacinto, Pepetela e outros mais? E que Guiné e Cabo Verde já estavam na escrita de Amílcar Cabral e Baltasar Lopes, Moçambique na de José Craveirinha e São Tomé na de Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo? E que Brasil mais brasileiro do que o que vem de Castro Alves a Carlos Drumond de Andrade, passando por Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, sem esquecer a prosa de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado e da minha querida amiga Lygia Fagundes Telles?

Em cada um destes países, e também em Timor, a língua da colonização transformou-se em língua de libertação. A afirmação das respectivas identidades culturais, tal com a própria proclamação da independência, foi feita em português. Numa célebre ode, Almeida Garrett saudou o Brasil liberto, dizendo que a sua independência acrescentava "a lusa Liberdade".

Língua de múltiplas tiranias e de muitas resistências. Língua una e diversa. Tanto mais pura quanto mais impura, tanto mais rica quanto mais mestiça. E por isso, como diz Eduardo Lourenço, "o apelo à lusofonia só tem verdadeiro sentido e, sobretudo, efeitos práticos, se nos vier de fora, se for uma palavra do outro, que pode falar um português como nós mas se tornou um outro até pela recusa, metamorfose ou nova interpretação cultural do que outrora ia na língua portuguesa".

Língua de viagem. Mar de muitos mares. Esta é a língua que, segundo creio o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar, convidando-nos a partir à descoberta de novos autores que em português se exprimem. E por isso aceitei presidir ao júri constituído por ilustres confrades de Angola, Brasil, Moçambique e Portugal. Comecei por ficar um tanto aflito com tamanha responsabilidade. Valeu-me a certeza de estar bem acompanhado. É que este é um concurso em que não há interferências de qualquer género. Ninguém sabe quem é quem. Os originais chegam sem rosto e sem nome, apenas com pseudónimos.

Tive a sorte de o primeiro que li ter sido precisamente _O Rastro do Jaguar_. Senti-me a descobrir outra vez o Brasil e a penetrar no segredo e no mistério de um país desconhecido através de uma narrativa épica, com uma estrutura wagneriana, onde em vez de valquírias e nibelungos, nos aparecem os guerreiros e xamãs ameríndios com as suas falas sagradas, ritmicamente repetidas, que fazem de certas páginas deste livro uma arte poética, um reencontro com a palavra primordial, poesia em estado puro. Quando dei por mim, eu já era Pierre, o que de menino fora levado para França e depois de ter sido oficial de Bonaparte estava agora nas profundezas do Amazonas, travando a mais devastadora das guerras do Brasil, a guerra do Paraguai. Mas sobretudo procurando-se a si mesmo, reencontrando-se com os seus em outra guerra pela sobrevivência das tribos perseguidas, vivendo um mágico e irreversível processo de transformação em que a demanda de um destino individual se conjuga e confunde com o próprio destino ameríndio.

Narrativa histórica, épica e profética, que nos revela a beleza e a tragédia das tribos esquecidas e perdidas que preservam uma sabedoria essencial e, apesar da constante e inexorável invasão dos seus territórios, continuam a acreditar na harmonia cósmica e não desistem de procurar o país que talvez só exista nas palavras sagradas do poema, o país sem mal.

Confesso que, embora aterrorizado com os milhares de páginas dos originais que tinha de ler, me deixei fascinar pela escrita por vezes encantatória de _O Rastro do Jaguar_. Li e reli com vontade e receio de acabar, tal como acontecia quando éramos meninos e nos deslumbrávamos com uma história cujos personagens ficavam dentro de nós. Agora é cada vez mais raro. Mas às vezes o milagre acontece. Então, como em _O Rastro do Jaguar_, somos apanhados por uma cadência que, no fundo, desde a epopeia de Gilgamesh, continua a ser a da demanda do destino do homem e das grandes perguntas sem resposta.

Não esquecerei, e creio que os outros membros do júri também não, esse momento irrepetível da revelação de um autor de grande talento que eu não sabia quem era. Foi uma espécie de grau zero do autor e de prazer absoluto do texto, embora com a convicção de que naquele livro a escrita rimava com a vida.

Tão pouco esquecerei o telefonema que fiz ao vencedor, já então com nome, Murilo António de Carvalho. Ele mal me conseguia ouvir, estava no Amazonas em outro capítulo do romance da sua vida. Quando percebeu, acho que esteve quase a cair ao rio.

Agora que está entre nós, quero felicitá-lo e agradecer-lhe o muito que aprendi sobre o outro lado do Brasil, a sua História, as suas tribos, o seu mistério e a incomparável beleza das suas palavras sagradas, que são a forma primordial da poesia. Muitos parabéns e muito obrigado, Murilo de Carvalho.

Estou certo que muitos leitores vão ficar fascinados ao peregrinar consigo nesta sua história que é, afinal, a História desconhecida do seu e nosso Brasil e de todos os que trilham "as sendas de um povo em busca da Terra Sem Males".

Manuel Alegre, Presidente do Júri