"Não gosto de engenharias sociais ou artificiais messiânicas"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em Braga:
Uma “reedição do bloco central” seria um “grande retrocesso”
27-04-2018 Lusa

O socialista Manuel Alegre avisou hoje que uma "reedição do bloco central" seria um "grande retrocesso e colocaria em risco" o PS, salientando que, mesmo com uma maioria absoluta, os socialistas devem "manter a convergência de esquerda"."Uma viragem à direita, ou uma reedição do bloco central, ou uma inversão destas políticas seria um grande retrocesso e colocaria em risco, não tenho dúvida nenhuma, o Partido Socialista, tal como aconteceu àqueles partidos socialistas e sociais-democratas que se aliaram à direita para fazer a política da direita", avisou o antigo candidato à Presidência da República, em Braga, num jantar evocativo do 25 de Abril.

Para aquele que foi um dos fundadores do PS, a atual solução governativa "foi uma revolução pacífica" na democracia portuguesa: "Havia aqui um mito, que era o mito do arco da governação e isso mutilava a democracia porque retirava da responsabilidade do Governo forças politicas que representavam uma parte significativa da sociedade", explicou.

Manuel Alegre, que durante o discurso repetiu várias vezes que António Costa (primeiro-ministro) teve "a coragem e o mérito" de avançar para uma solução inédita, considerou que a apelidada "geringonça" acabou por "restituir ao parlamento a centralidade da democracia, a democracia deixou de estar mutilada, deixou de estar coxa e mostrou que é no parlamento que se fazem e desfazem os governos".

No entanto, depois de enaltecer aquela solução governativa, o também antigo deputado lembrou que "não é fácil" manter a "geringonça", deixando de passagem um recado aos bloquistas. "Eu pedia ao Bloco de Esquerda que moderasse por vezes a linguagem em relação ao PS", apontou.

Entre elogios a António Costa e àquela que chamou a "nova geração" socialista, Manuel Alegre foi deixando também alguns avisos: "Não temos que nos deslumbrar com o poder, o poder não é um fim em si mesmo, fico sempre um bocado desconfiado quando vejo o PS deslumbrar-se consigo mesmo ou com o poder, espero que isso não aconteça".

Por isso, salientou que, mesmo que os socialistas tenham maioria absoluta nas próximas eleições legislativas, não devem deixar cair a "geringonça". "É claro que o PS pode vir a alcançar uma maioria absoluta, isso é normal, mas mesmo que tenha deve manter esta política, deve resistir à tentação centrista, resistindo ao 'canto de sereia' da direita e mantendo esta convergência à esquerda, esta fidelidade aos valores do socialismo, da liberdade e da igualdade".

O ex-dirigente socialista lembrou que "as coisas correram bem, repuseram-se rendimentos, salários, a economia subiu, o défice (é o) mais baixo de sempre" e que Portugal "conseguiu até que o ministro das Finanças fosse para presidente do Eurogrupo", mas alertou que isso não chega.

"Temos que ir mais longe, dar consistência a este programa e o essencial agora é o Estado Social, investirmos nos serviços públicos", apontou, dando um exemplo: "Queria deixar aqui este recado. Em nome do camarada Arnaut, é um imperativo nacional, patriótico e de Estado salvar o Serviço Nacional de Saúde, é uma obrigação do PS, de toda a esquerda e de toda a democracia".