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Manuel Alegre, Carlos Brito, António Borges Coelho e José Manuel Mendes
Manuel Alegre, Carlos Brito, António Borges Coelho e José Manuel Mendes
Manuel Alegre sobre o livro “Álvaro Cunhal – sete fôlegos do combatente”:
“Nem panegírico, nem ajuste de contas – retrato de um homem enquanto homem”
28-05-2010 com Lusa

“Este não é um livro de revelações sensacionalistas, não é um panegírico, mas também não é um ajuste de contas” afirmou ontem Manuel Alegre na apresentação do livro “Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente", do antigo dirigente comunista Carlos Brito. “Direi que é a melhor homenagem que se podia prestar a Álvaro Cunhal. Porque não é o retrato de um líder enquanto Deus nem de um líder enquanto diabo. É o retrato de um homem enquanto homem, um homem de qualidade excepcional cuja história se confunde com a história do PCP e que marcou a história do século XX português”, disse ainda Manuel Alegre.
Oiça a intervenção de Manuel Alegre AQUI

“Homem de virtudes e defeitos capaz de grandes rasgos e de erros e que como todos os homens tinha amores, paixões e até embirrações” comentou o candidato presidencial, que classificou este livro como “um livro de afectos, marcado por uma ternura viril e uma camaradagem de Távola Redonda forjada no combate e no ideal.” O livro, que traça o percurso e pensamento político de Álvaro Cunhal em diversos contextos históricos, “é, em grande parte, Cunhal pelo próprio Cunhal, através dos seus textos, livros e principalmente discursos”, explicou Manuel Alegre.

Na sua análise sobre os “sete fôlegos” identificados por Caros Brito no percurso do histórico líder comunista, o candidato presidencial, que conheceu Cunhal em 1964, identificou um "oitavo fôlego" - que no livro Carlos Brito caracteriza como “um salto para trás”. Foi o seu regresso à vida política em 1999, quando o PCP era liderado por Carlos Carvalhas. Cunhal ficara "muito perturbado" com o colapso na União Soviética e com a desagregação de partidos comunistas da Europa Ocidental "que mudaram de nome ou procuraram adaptar a sua identidade à nova realidade". Nessa altura, Cunhal "veio reafirmar com extrema dureza a identidade marxista-leninista do PCP, contra as várias correntes renovadoras que entendiam que era preciso renovar o pensamento político e valorizavam mais o pensamento marxista". Manuel Alegre deixou à assistência que enchia a sala esta interrogação: “Sem esse salto para trás, que é para dentro do PCP, e sem essa reafirmação ideológica, o PCP não se teria desagregado como outros partidos comunistas de países europeus”?

Sustentando que "teria sido fantástico para a esquerda portuguesa se aquilo que propunham o Carlos Brito e outros se tivesse verificado”, ou seja, se o PCP tivesse seguido a orientação de "uma certa liberalização e abertura”, Manuel Alegre constatou no entanto que isso talvez pudesse ter posto em causa a sobrevivência do partido. "O PCP perdeu votos, perdeu alguns dos melhores quadros, mas manteve-se e aí está", declarou o socialista, sublinhando: "A verdade é que tem sobrevivido, tem resistido e aí está".

Manuel Alegre lamentou que o PCP de Álvaro Cunhal nunca tivesse escolhido fazer alianças com toda a esquerda. “Preferiu sempre outras alianças, primeiro com o MFA, depois com o general Eanes, nunca com o PS, nunca com as outras forças políticas de esquerda”. “A culpa não foi só de um lado” ressalvou Alegre, para quem “esta divisão das principais forças políticas de esquerda” teve repercussões no que considerou “o recuo daquilo que podia ter sido uma democracia avançada”. “A vítima foi a esquerda em geral e a democracia”, concluiu, recordando que as consequências dessa divisão levaram às maiorias do PSD com Cavaco Silva.

Referindo-se a Carlos Brito, autor do livro, Alegre sublinhou que se trata de "um comunista de grande têmpera" e afirmou que este livro é "a primeira grande homenagem" ao líder histórico do PCP Álvaro Cunhal (1913-2005), que o PCP "deve agradecer" ao autor.

Opinião semelhante tem o antigo comunista e historiador António Borges Coelho, que considerou que, "provavelmente, não teríamos o PCP que existe hoje", lançando a pergunta: "será que Álvaro Cunhal abafou o adorado bebé?". Uma "polémica" que não ficou sem resposta. Carlos Brito considera que "foi a idade" que impediu Cunhal de compreender estes momentos de evolução e acredita que o antigo líder comunista se "equivocou profundamente ao considerar que os renovadores eram sociais democratas". "Éramos revolucionários comunistas, ainda somos", defendeu, apontando como "o grande erro" de Cunhal o facto de ele não ter acreditado que "aquele movimento renovador não ia dar cabo do partido".

Sobre o seu livro, Carlos Brito afirma que é "um testemunho, um contributo para a História", mas também "um ato de homenagem à memória" de Cunhal para que, quando se comemora o centésimo aniversário da República Portuguesa, "não haja dúvidas de que Álvaro Cunhal foi uma grandes figuras" dos últimos 100 anos.