"Por vezes tive a sensação de que um discurso pode mudar as coisas"
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João Assunção, Manuel Alegre e Alberto Martins na cerimónia de atribuição do título de sócio honorário da AAC
João Assunção, Manuel Alegre e Alberto Martins na cerimónia de atribuição do título de sócio honorário da AAC
Manuel Alegre na atribuição do título de sócio honorário:
“Associação Académica de Coimbra é aquele primeiro amor de que todos os outros são declinações”
10-12-2021 Patrícia Cruz Almeida, Diário as beiras

O poeta Manuel Alegre confessou ontem que nenhuma distinção o “tocou tão profundamente” como a atribuição do estatuto de sócio honorário da Associação Académica de Coimbra (AAC).“A AAC é a casa do meu ser. É aquele primeiro amor de que todos os outros são declinações. Foi aqui que me fiz homem, cidadão, escritor, boémio e muitas outras (coisas)", lembrou.

Na cerimónia de atribuição do título de sócio honorário, que decorreu na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, o escritor reconheceu ter tido o privilégio de viver um tempo de mudança.

Uma mudança que – afirmou – “se deu por razões que nem sempre são imediatamente racionalizáveis ou facilmente explicáveis, pela mudança que se foi dando lentamente na academia, desde os costumes aos comportamentos cívicos”.

“Havia muitas formas de ser PIDE e havia muitas formas de bufaria que, infelizmente, não desapareceram ainda por completo no nosso país. Porque a liberdade é uma flor, tem que ser regada constantemente, como dizia Miguel Torga”, advertiu, lembrando que num momento em que o mundo parece assistir a uma “espécie de desconstrução da democracia”, faz sentido, mais do que nunca, que os valores por que a geração de 60 e 70 se bateu sejam a “bandeira de sempre da AAC”.

Também Alberto Martins, presidente da DG-AAC em 1969 e sócio honorário da AAC, lembrou que “é urgente conseguir construir o presente e o futuro respondendo aos grandes problemas de uma sociedade, num momento em que a democracia e a política vivem uma grande regressão e em que Portugal tem grandes desafios ao seu modelo de desenvolvimento e ao seu trajeto”.
Sobre a atribuição da condição de sócio honorário a Manuel Alegre, disse ser uma atribuição “justa desde sempre, porque honra a academia de Coimbra.”

“Fiz parte de uma geração que teve em Manuel Alegre o seu poeta da liberdade, o poeta da resistência, o escritor das palavras interditas. Foi um poeta maldito, sobretudo um inimigo absoluto da ditadura, poeta da esperança, da juventude. Foi música do pensamento na canção de Coimbra”, disse Alberto Martins.

“Manuel Alegre é um homem do nosso destino. As rotas da nossa história recente cruzaram-se com ele. Ele esteve lá. E não esteve lá de passagem. Esteve lá num lugar do combate e da liberdade”, acrescentou.

Para o presidente da AAC, João Assunção, Manuel Alegre “é uma figura maior da cultura coimbrã, foi um pilar fundamental da música de Coimbra, foi atleta da AAC e foi um líder na resistência à ditadura. Será um digníssimo representante da instituição”, sublinhou.
A proposta da Direção-Geral da AAC foi aprovada no passado mês de outubro, em assembleia magna convocada para o efeito, que assim distinguiu o poeta pelo seu papel na cultura coimbrã, bem como pela resistência contra o Estado Novo e na consolidação da democracia em Portugal.