"Na televisão, os comentadores de futebol substituíram grandes figuras da literatura portuguesa"
Manuel Alegre
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Afonso Guerra e Manuel Alegre na Feira do Livro de Sevilha:
“A revolução de Portugal foi a chave para a Transição”
29-05-2019 ABC de Sevilha (tradução nossa)

Há 45 anos, um 25 de abril mudou a história de Portugal. Um dos protagonistas desse episódio, o poeta e dirigente socialista Manuel Alegre, interveio ontem, bem como o ex-vice presidente do governo (de Espanha), Alfonso Guerra, numa jornada intitulada “45 anos do 25 de abril. Portugal e Espanha”, no âmbito das iniciativas portuguesas na Feira do Livro de Sevilha.

Em cada cadeira, um cravo vermelho recebia o visitante, a quem João Queirós, cônsul de Portugal em Sevilha, informava ter sido o primeiro a nascer depois da Revolução dos Cravos, “por isso cresci no Portugal livre e moderno.”

Enquanto eram projectadas imagens das ruas de Lisboa durante a Revolução dos Cravos, o fado de João Farinha & Fado ao Centro inundou a sala com letra de Manuel Alegre, “um poema escrito no exílio em 1967 que fala de como na noite mais escura há sempre alguém que resiste. E foram estas palavras que deram alento aos portugueses nos últimos anos da ditadura.”

Apresentados por Nuno Ribeiro, que foi correspondente do jornal Público em Espanha, Alfonso Guerra e Manuel Alegre deram rédea solta às memórias daquele 25 de abril e da Transição espanhola, “há uma grande coincidência entre eles, disse Ribeiro, nenhum deles se cala.”

Alfonso Guerra disse que há 45 anos Manuel Alegre e ele viveram muitas coisas juntos, “eram coisas que estavam a marcar a história dos nossos países. Portugal lutava contra uma ditadura e nós também. E de repente sabemos que tinha havido uma revolta dos capitães pela democracia e o impacto para nós foi extraordinário. Sabíamos de Portugal que os guarda-republicanos portugueses tinham entregue Miguel Hernández à Guadia Civil, quando fugia para Portugal e que em Badajoz tinham assassinado Humberto Delgado, que se opunha a Salazar. E de repente há uma revolução e eu senti uma alegria imensa.”

O dirigente socialista disse que entre 1974 e 1975 tinha vindo 63 vezes a Portugal “sem ter passaporte. Converteu-se na sede de partido que aqui em Espanha eu não podia ter, com Mário Soares e Manuel Alegre, foi lá que conheci Willy Brandt.” Alfonso Guerra recordou muitas histórias, “mas aquilo não foi tudo uma festa. O verão de 75 foi duríssimo e eu vivi-o com Mário Soares e Manuel Alegre, foi um dos momentos mais importantes da minha educação política”.

Manuel Alegre chamou a Alfonso Guerra “grande figura da democracia espanhola, por tudo o que fez no período da Transição. É um dos homens chave.” Em chave poética Alegre disse que a “a vida é muito longa mas o tempo, rápido” e explicou que o 25 de abril foi consequência do cansaço dos militares das guerras coloniais, “e havia forças contraditórias, e aquilo converteu-se em revolução democrática pelo apoio do povo, que impediu o regime de intervir. Depois de quase 50 anos de fascismo, foi uma erupção de alegria impossível de controlar”. Mas, segundo Alegre, também teve os seus problemas, “por causa das diversas facções que havia no país. E nós o que queríamos era fazer uma Constituição. Foi muito duro. Havia militares dos vários lados. Estivemos muito perto do confronto. A luta não foi entre militares de esquerda ou de direita, não, foi política.”

Alegre falou do triunfo de Mário Soares e da Constituição Portuguesa “que pela primeira vez contemplava os direitos sociais. Foi uma revolução pioneira, porque pela primeira vez os militares tomaram o poder e cumpriram a sua palavra, restituíram o poder ao povo através de eleições livres. E demonstrámos que se podia passar de uma ditadura para uma democracia, sem cair numa ditadura de sinal contrário. Isso foi importante para Espanha. Parece-me importante que as forças democráticas de Portugal e Espanha continuem juntas para preservar as liberdades e para terem uma postura que lidere essa defesa na Europa.”

O perigo da guerra civil

Alfonso Guerra coincidiu com Alegre, “a revolução do 25 de abril foi chave para a Transição. Mas quero dizer que em política há pudor em reconhecer algumas coisas. Portugal deu um exemplo com a revolução do 25 de abril, mas as coisas estiveram a ponto de se desviar muito seriamente. Houve um enorme perigo de eclosão de uma guerra civil em Portugal e um perigo muitíssimo próximo de instalação de uma ditadura de modelo soviético. Isto esteve quase a acontecer, o que teria atrasado a democracia espanhola. E houve um grupo de homens, entre os quais Soares, Alegre e Salgado (Zenha) que disseram: queremos a democracia, não queremos nenhuma outra aventura. E isto em Espanha não é conhecido.

As memórias de ambos protagonizaram a tarde. “O 25 de abril é pela primeira vez uma revolução que gera a democracia”, disse Manuel Alegre, ao que Guerra contestou que “as revoluções devoram sempre os seus filhos, menos em Portugal. No vosso país o aparelho da ditadura desmoronou-se, em Espanha houve que assimilá-lo, o que tornou o processo mais pastoso.”

Alfonso Guerra falou do processo em Espanha, “que foi muito diferente do de Portugal. Elegeu-se Adolfo Suárez que era o Secretário Geral do “Movimiento”(1) . Muitos criticaram esta eleição, mas quem melhor para desmontar o aparelho do que aquele que o encimava?” E recordou as reuniões da Comissão Constitucional, “em quinze dias só se aprovaram 25 artigos, todos pela direita, e pensámos, quando ganhar a esquerda temos de abolir esta Constituição…Então chamámos todos, vieram todos os partidos menos o de Fraga Iribarne, então Aliança Popular, e conseguimos uma Constituição para que qualquer deles, de um lado ou outro, pudesse governar. Por pressão popular, nós, os dirigentes políticos, não exigíamos o máximo dos programas. Tínhamos de nos pôr de acordo e fizemo-lo. São precisas reformas, sim. Mas a Constituição espanhola tem uma solidez enorme. Foi difícil, mas feliz, porque teve sucesso”, disse, ao que Manuel Alegre acrescentou que “foi um trabalho de filigrana e inteligência”.

Ambos qualificaram o futuro como “imprevisível” e se mostraram preocupados com o avanço da extrema direita nos países europeus, “pensávamos que os fascismos tinham sido superados em 1945, mas não é assim”, disse Alfonso Guerra. Também se mostraram preocupados com a situação dos mercados, com o envelhecimento da população e com a situação laboral dos mais jovens. “A Europa é uma invenção extraordinária, mas têm de se resolver com urgência os problemas sociais”, assinalou Manuel Alegre.

Foi um encontro de amigos, leitores ávidos e pessoas que foram protagonistas de grande parte da história de uma revolução, a revolução dos cravos, que gerou frases tão belas como que apareceu na imagem de um cartaz: “A poesia está na rua”.

(1) O “Movimiento” foi o nome dado durante o franquismo ao mecanismo totalitário de inspiração fascista que tinha o monopólio da participação na vida pública espanhola.