"É preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra"
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Notícias
Foto DN direitos reservados
Foto DN direitos reservados
Patavinos doutoram Manuel Alegre, exemplo perfeito da poesia como arma
23-11-2017 https://www.dn.pt/artes/interior/patavinos-doutoram-manuel-alegre-exemplo-perfeito-da-poesia-como-arma-8936816.html

A língua portuguesa foi ontem homenageada com a concessão do doutoramento honoris causa a Manuel Alegre pela Universidade de Pádua, onde existe a cátedra com o seu nome para impulsionar o estudo da cultura portuguesa.

Após o cerimonial próprio de um doutoramento na segunda mais antiga universidade italiana, a de Pádua, Manuel Alegre foi homenageado por três patavinos. O trio de estudantes interpretou uma canção para o poeta, tendo-lhe oferecido um chapéu típico da região e um diploma do doutoramento à sua moda, com uma caricatura do escritor, e elogiaram-no por ter escrito poemas para serem cantados. O poeta esclareceu-lhes que foram poemas seus antigos musicados, alguns de uma obra que minutos antes o reitor Rosario Rizzuto referira como razão principal para ser atribuído um doutoramento a um português onde Damião de Góis estudou.

Para Rizzuto está também em causa uma vida dedicada à resistência política ao regime de Salazar e de Caetano e de uma luta de anos pela liberdade. Não fora por acaso que fizera esta referência no sumptuoso salão da universidade, perante uma plateia com muitos docentes e estudantes de português, autoridades italianas e portuguesas e membros da comitiva que o acompanharam até Pádua, afinal esta universidade tem um longo histórico em função da liberdade.

Na leitura da proposta ao doutoramento, o reitor referiu a obra literária de Manuel Alegre e o seu interesse junto dos leitores italianos e destacou que o homenageado "começou a fazer política cedo, apoiou a candidatura de Humberto Delgado, foi exilado e desde que escreve os seus primeiros poemas mostra bem a sua vontade de resistir", nomeando o conjunto sob o título Praça de Canção como exemplo perfeito da "atividade política também por via da poesia". Considerou que a poesia foi em Alegre "uma arma pelo fim do regime e pela luta anticolonialista" e que é um "poeta da lusofonia premiado e condecorado".

Antes, durante a receção no seu gabinete, Rizzuto fizera questão de ouvir "na universidade de Galileu" um resumo da Revolução dos Cravos e da participação de Alegre, assim como evocou certas figuras do 25 de Abril. Ao aperceber-se de que a conversa já ia longa de mais, ainda lamentou os altos impostos que são cobrados nos dois países antes de o desfile de professores envergando os trajes próprios se encaminhar para a sala magna. No discurso, fez questão de referir que o "poeta, parlamentar e candidato à Presidência mantém-se intelectual" e tem na instituição "uma cátedra com apoio do Instituto Camões que colabora na difusão da cultura e língua portuguesa" antes de entregar a laurea ad honorem e do doutorado realizar o seu abrangente discurso de agradecimento.

Uma lição lida em português e que a professora Sandra Bagno, principal patrocinadora de todo este processo de divulgação da obra do poeta que culminou ontem com o doutoramento honoris causa, traduziu para os presentes.

Alegre lembrou que, antes de ser Estado, Portugal já era trova, língua e poesia e que da língua de Dante o poeta Sá de Miranda trouxe o dolce stil nuovo, entre outras influências da cultura italiana; apontou a importância da língua que Camões consolidou e que se escreve e fala hoje em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste; recusou aceitar o pensamento de Saramago ao dizer que "as línguas cercam-se umas às outras" para explicar as ameaças que pairariam sobre o português e o italiano nos tempos atuais; fez notar que as consoantes do português em "Portugal assobiam, na África cantam e no Brasil dançam" e que o fundo desta língua é o mar.

Emoção em Pádua

O dia de ontem começou cedo para o homenageado. Visivelmente nervoso e emocionado, Manuel Alegre chegou à universidade para se vestir de acordo com o protocolo: uma toga preta - "negra como a de Coimbra" -, com uma gola de pelo branco. Depois, para perceber os momentos da cerimónia e, num instante, ficar rodeado pelos professores da instituição que participariam da cerimónia.

Após o doutoramento, a universidade promoveu uma bicchierata, um cocktail mais íntimo, em que o poeta já honoris causa confraternizou com mais de uma centena de convidados e amigos, seguido de um almoço, antecipando a primeira sessão de dois dias de um congresso sobre a obra e a vida do poeta na própria instituição.

A Universidade de Pádua nasceu em 1222 por vontade dos filhos das famílias nobres e abastadas que não queriam estudar na congénere de Bolonha devido às restrições à liberdade que em Pádua não existiam. Foi a primeira a formar uma mulher e a ter um curso de Medicina moderno e sempre recusou limites ao debate, ensino e estudo, tanto que o reitor no tempo da II Guerra Mundial foi obrigado a exilar-se por criticar o fascismo emergente na Europa dessa época.

Quando Alegre foi proposto todos os professores concordaram, diz Bagno, "pois a sua obra corresponde à história de Pádua na luta pela liberdade". Acrescenta que "há coincidência de certos aspetos entre a história da Universidade através da biografia do antigo reitor Concetto Marchesi e a do autor ao reafirmar o espírito de um Portugal livre". A proposta de doutoramento sucedeu à efetivação da cátedra com o seu nome para impulsionar o estudo da língua e cultura portuguesas e em 2016 foi aceite pelo ministro da Educação italiano.

O poeta participa anualmente em eventos em Pádua e tem vários livros em prosa e poesia traduzidos em Itália. Este é o seu primeiro doutoramento honoris causa. Esteve para o receber durante o exílio na Argélia mas um problema de saúde do presidente Bouteflika interrompeu a cerimónia. Ontem em Pádua, cumpriu-se essa homenagem.

Em Pádua