"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre fala ao Expresso da prisão em Luanda em 1963:
“O postigo: um quadrado de onde se via o céu, o azul, o azul do lá fora, todo o azul, o azul da vida”
19-04-2017 Texto de Cristina Margato, video de Joana Beleza, Expresso Diário


O isolamento foi uma arma sofisticada usada pela ditadura, um método de tortura a que a PIDE recorria como complemento da privação de sono, dos espancamentos e das humilhações. O poeta e político Manuel Alegre, detido em Luanda, em abril de 1963, foi um dos presos políticos que foi colocado na “solitária”. É o segundo dos testemunhos que o Expresso está a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os chamados “curros”, ou “segredo”

Foi o inspetor da PIDE Coentrão que deu a ordem: “Fecha! Este não tem direito a postigo.”

Manuel Alegre foi preso em Luanda a 17 de abril de 1963, um ano depois de ter sido mobilizado para a guerra em Angola. Chegou como oficial miliciano, e rapidamente se envolveu numa conspiração de golpe contra o regime que não se concretizou.

A gravidade do ato, ainda mais em plena guerra, fê-lo acreditar que tudo lhe podia acontecer: “Uma tortura violenta, até mesmo uma tentativa de me liquidarem.” Dar ordem, como fez o inspetor da PIDE logo no primeiro dia, para fechar o postigo, aquele pequeno quadrado na cela parecia-lhe, por isso, um pormenor, provavelmente o menor das castigos: “Olhei, e achei que aquilo não tinha importância.”

Manuel Alegre foi preso primeiro pela própria polícia militar e colocado em reclusão, e só depois entregue à Pide, que o esperava à saída das instalações militares. Ainda que se questionasse dentro do carro que o levou até a prisão de São Paulo, em Luanda, “como é que vou aguentar?”, Manuel Alegre lembra-se de experimentar um estranho “estado de graça da desgraça”, que oscilava entre uma “serenidade difícil de explicar” e “uma espécie de euforia, como se tivesse levado várias injeções de adrenalina”.

Nos meses que se seguiram o poeta haveria de se encontrar no que descreve como “a situação irremediável, de quem não pode contar com nada a não ser com a sua força interior”, ainda que depois de cada interrogatório sentisse, por vezes, uma certa euforia “por ter aguentado o essencial”. Manuel Alegre, oficial miliciano, não foi vítima de violência física, mas durante os interrogatórios esteve sujeito à tortura do sono.

Um dia, de regresso à cela, depois de mais um interrogatório, o poeta e político acabou por ser surpreendido por um queijo, que não comeu por desconfiar estar envenenado. Outro dia, por uma caixa de fósforos, dentro da qual vinha uma mensagem de José Luandino Vieira, o escritor angolano que haveria de ter para Manuel Alegre uma importância fundamental durante os tempos de reclusão que se seguiram. Esses “gestos de cumplicidade”, a que Luandino acrescentou outros, fez com que a prisão fosse mais suportável para Manuel Alegre. No papel que vinha dentro da caixa de fósforos Luandino dizia-lhe que sabia quem ele era e que estaria acordado durante os interrogatórios para lhe assobiar a canção russa “Plaine, ma Plaine”.

A poesia que Manuel Alegre escreveu na cadeia e que Luandino ajudou a colocar fora da cadeia, a caixa de fósforos que guardava a promessa de um assobio, como o postigo que o esbirro havia mandado fechar, passaram a ser a hipótese de aceder ao mundo exterior, aos sentidos que o podiam transportar além daquela “solidão absoluta” cortada pelos gritos dos torturados, “quase uivos, de uma humanidade despedaçada”. Eram a porta de acesso ao apoio de Luandino Vieira, preso dois anos antes, ou “ao quadrado de onde se via o céu, o azul, todo o azul, o azul do lá fora, o azul da vida”.

Muito do que Manuel Alegre viveu na prisão acabaria por aparecer refletido na sua escrita, depois de ser liberto, e remetido a prisão domiciliária em Coimbra, da qual saiu para o exílio, em Argel, onde haveria de passar dez anos da sua vida, e de onde partiu, sem olhar para trás, assim que soube do 25 de Abril.