"Nada está adquirido, tudo está a andar para trás muito depressa"
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"Atrapalhado e comovido", Alegre pegou nas armas: poemas e canções
09-04-2014 Pedro Cordeiro, Expresso

Poeta e político encheu o Quartel do Carmo para lançar a antologia "País de Abril", a celebrar os 40 anos da Revolução dos Cravos. O 25 de Abril "não pode ser só mais uma data no calendário". Foi por ter esta convicção que Manuel Alegre lançou, esta quarta-feira, a antologia "País de Abril" (Publicações Dom Quixote, €5), que reúne 29 poemas de alguma forma relacionados com a Revolução dos Cravos. Alguns foram escritos antes de 1974.

O lançamento decorreu, com grande simbolismo, no Quartel do Carmo, onde o ditador Marcelo Caetano se viu cercado pelas tropas do capitão Salgueiro Maia no dia do golpe. Perante uma plateia mais do que lotada e que se espraiou pelo pátio, o poeta disse-se "atrapalhado e comovido". A aplaudir estavam o ex-Presidente Ramalho Eanes, a antiga primeira dama Maria Barroso (também em representação de Mário Soares, frisou), o presidente da fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva, e o ex-primeiro-ministro José Sócrates, sentado mesmo atrás do seu sucessor na liderança do PS, António José Seguro.

Começando por homenagear os capitães de Abril - Vasco Lourenço estava na primeira fila -, Alegre recordou que "foi Salgueiro Maia que abriu estas portas". O autor e ex-deputado estava, então, exilado em Argel, onde nasceu o seu filho mais velho, o hoje diplomata Francisco Duarte. "Chegou a Portugal com passaporte argelino", contou.

A distância não diminuiu o "privilégio" de viver aqueles tempos, que Alegre quis recriar, passados 40 anos, "sem armas, mas com poemas e canções, que também são armas". Os músicos Francisco Fanhais e Manuel Freire cantaram poemas de Alegre durante a cerimónia, tendo tido a colaboração de quase toda a assistência em "Trova do vento que passa", poema de Alegre musicado pelo seu cunhado António Portugal e celebrizado por vozes como Amália Rodrigues e Adriano Correia de Oliveira, que, se fosse vivo, faria hoje 72 anos.

"As palavras estão ocupadas"

Se os tempos atuais são bem diferentes dos da ditadura do Estado Novo, nem por isso deixa de haver, na opinião de Manuel Alegre, necessidade de resistir e dizer "não". O socialista criticou o "economês tecnocrata" e alertou que quando as "palavras estão ocupadas", é o "poder soberano da língua que fica em perigo". "Cortam as dimensões da vida e a música das vogais", denunciou. Fica, porém, uma palavra de esperança: "A poesia pode libertar a língua".

É curioso verificar que vários poemas anteriores à Revolução mencionam o mês de abril. Nenhum é tão profético como "Poemarma", recolhido do livro "Praça da Canção" (1967), o primeiro de Alegre, que até esteve para se chamar "País de Abril", como a antologia que lançou esta quarta. Diz esse poema: "Que o poema seja microfone e fale / uma noite destas de repente às três e tal / para que a lua estoire e o sono estale / e a gente acorde finalmente em Portugal". Uma autêntica antevisão dos primeiros comunicados do Movimento das Forças Armadas na madrugada da Revolução.

"Gostaria que estes poemas fossem de novo um alerta e um apelo. Ninguém quer perder Portugal como futuro do passado. Ninguém quer perder a língua portuguesa que Camões e Pessoa nos legaram", declarou Alegre perante uma sala onde pululavam cravos - nas mesas, nas lapelas e nas mãos de gente de três ou quatro gerações, incluindo a mulher, filhos e netos do político e escritor. A presidente do PS, Maria de Belém, o seu antecessor Almeida Santos, o filósofo Eduardo Lourenço, escritores como Nuno Júdice, Clara Rocha e José Manuel Mendes e o cantor Carlos do Carmo estavam entre os presentes.

"Só a boa poesia pode ter intervenção"

A obra foi apresentada pelo jornalista José Carlos de Vasconcelos, que sublinhou que muitos outros poemas de Alegre podiam estar nesta antologia. O poeta declamou um deles, "Abril de Abril", perante o aplauso do provedor da Justiça, Faria e Costa, e do presidente da CMVM, Carlos Tavares. O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, chegou no final para dar um abraço a Alegre.

Velho amigo do autor, Vasconcelos também poeta evocou os tempos de estudante em Coimbra - ambos estudavam pouco em Direito, dedicando-se ao combate pela democracia. Eram os anos das "sessões de canto livre" com Zeca Afonso, Adriano, Freire e Fanhais, Carlos Paredes e Assis Pacheco, entre outros.

Vasconcelos descreveu a poesia de Alegre como "fenómeno extraordinário" que "chegou ao povo e teve influência como nenhuma outra". Tal deve-se, a seu ver, à qualidade literária que tem, pois "a poesia só consegue ser intervenção se for boa poesia". Olhar apenas para a sua dimensão política seria, pois, redutor.

Pegando no verso "Não mais Alcácer-Quibir", do poema "É preciso um país", Vasconcelos identifica em Alegre um sebastianismo "que olha para a frente", para concluir: "Precisamos de um Dom Sebastião ao contrário".