"Nada está adquirido, tudo está a andar para trás muito depressa"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre Luís de Camões:
“Só não puderam calar aquela flauta”
10-06-2012

Na recente ida de Manuel Alegre à Universidade de Pádua, a escritora Hélia Correia leu um poema intitulado “Luís de Camões”, da autoria de Manuel Alegre e editado na primeira edição de "O Canto e as Armas", de 1967.

No dia de Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebremos o Poeta fundador da língua portuguesa tal como hoje a escrevemos e falamos. E recordemos, com Manuel Alegre, o poema “recuperado” por Hélia Correia e hoje revestido de uma nova actualidade:

(…)
"E as vozes de fora mandaram
calar as vozes de dentro.
Só não puderam calar aquela flauta."

Também hoje “as vozes de fora” querem mandar “calar as vozes de dentro”. “Cada poema que se escreve”, lembra-nos sempre Manuel Alegre, “é uma derrota da indigência”. Como há décadas ele próprio escreveu, talvez profeticamente, lembremo-nos que, "quando tudo se perdeu/ ficou a arma do que não tinha armas", “Ficou uma flauta que cantava./ E era uma Pátria.”

Leia o poema "Luís de Camões" no desenvolvimento da notícia

Luís de Camões

Tinha uma flauta.
Não tinha mais nada mas tinha uma flauta
tinha um órgão no sangue uma fonte de música
tinha uma flauta.

Os outros armavam-se mas ele não:
tinha uma flauta.
Os outros jogavam perdiam ganhavam
tinham Madrid e tinham Lisboa
tinham escravos na Índia mas ele não:
tinha uma flauta.

Tinham navios tinham soldados
tinham palácios e tinham forcas
tinham igrejas e tribunais
mas ele não:
tinha uma flauta.

Só ele Príncipe.

Dormiam rainhas na cama do rei
princesas esperavam no belvedere
Ele tinha uma escrava que morreu no mar.

Morreram escravas as rainhas
morreram escravas as princesas
nenhuma teve o seu rei
para nenhuma chegou o Príncipe.
Por isso a única rainha
foi aquela escrava que morreu no mar:
só ela teve
o que tinha uma flauta.

Morreram os reis que tinham impérios
morreram os príncipes que tinham castelos
mas ele não:
tinha uma flauta.

De fora vieram reis
vieram armas de fora
os príncipes entregaram armas
ficou sem armas o povo.
As armas de fora venceram
todas as armas de dentro.
Só não venceram o que não tinha armas:
tinha uma flauta.

E as vozes de fora mandaram
calar as vozes de dentro.
Só não puderam calar aquela flauta.
Vieram juízes e cadeias.
Mas a flauta cantava.

Passaram por todas as fronteiras.
Só não puderam passar
pela fronteira
daquela flauta.

E quando tudo se perdeu
ficou a arma do que não tinha armas:
tinha uma flauta.

Ficou uma flauta que cantava.
E era uma Pátria.

Manuel Alegre